foco intercultural

cross-culture, gestão estratégica, etc.

O que é Interculturalidade?

Milton J. Bennett

Uma boa resposta para esta pergunta está na entrevista realizada em 2011 (mas muito atual) pela revista Época com Milton J. Bennett, uma referência na área de estudos culturais.  Ele explica os conceitos básicos da comunicação intercultural e comenta questões como identidade e sociedade moderna.

Por Lucas Hackradt.

Vivemos em um mundo cada dia mais conectado e em que as pessoas estão cada vez mais em contato umas com as outras. A afirmação já é tão disseminada que virou praticamente um clichê. Apesar disso, pouca gente sabe que essa nova realidade virou objeto de estudo e acabou criando um novo campo teórico. Assim como a sociologia e a antropolgia, o interculturalismo estuda as culturas dos povos, mas se diferencia de ambas essas áreas por propor uma análise do ponto de vista da interação entre as pessoas.

“A Comunicação Intercultural é uma evolução da Teoria da Comunicação para um contexto mais global; defende que as pessoas precisam primeiro entender a si, aprender a dar significado a suas próprias formas de comunicação, para só então poder criar significados que façam sentido para todos os outros”, afirmou, a ÉPOCA, o interculturalista Milton J. Bennett, considerado um dos pais da área e um dos mais importantes estudiosos do tema.

Bennett defende que a aprendizagem intercultural é essencial para que todos convivam em paz no mundo. Segundo ele, devido às diferenças que existem entre todos nós, acabamos por nos eliminar. “Primeiro tentamos converter a pessoa diferente para que seja igual a nós. Infelizmente, porém, se essa conversão falha, a história mostra que o ser humano parte para a saída mais simples, que é eliminar o povo culturalmente diferente”, disse.

Como evitar esse extremo? Bennett diz que a saída é oferecer educação intercultural em todo o mundo, principalmente por meio de programas interculturais altamente capacitados e de institutos e ONGs de ensino da interculturalidade. Além, é claro, de se reforçar a ideia de que, no fundo, somos todos iguais, independentemente de onde nascemos.

 

ÉPOCA – Qual a importância do interculturalismo para a sociedade moderna?

MILTON J. BENNETT – Temos que voltar um pouco na história desse campo de estudos. No século passado, o canadense Marshall McLuhan criou o termo “aldeia global”. O que ele quis dizer por “aldeia global” certamente não era que todas as pessoas se tornariam iguais umas às outras, mas que pessoas diferentes poderiam estar mais próximas, ter um maior contato. Basicamente ele quis dizer que nós nos tornaríamos todos vizinhos. E foi isso que aconteceu.

Os estudos realizados até hoje para comprovar a existência de uma cultura global não chegaram a nenhuma conclusão – as pessoas estão mantendo firmemente suas visões de mundo e suas culturas próprias, o mundo não está se “globalizando” como as pessoas achavam que o faria. O que acontece é que as pessoas estão interagindo mais umas com as outras. Acredito que esse aspecto seja consistente com aquilo que nós, interculturalistas, defendemos, que é: por causa desse contato maior entre as pessoas, há uma necessidade de melhorarmos a forma como nos expressamos uns com os outros, e principalmente focar naqueles pontos em que falhamos na comunicação entre duas culturas distintas. À medida em que as sociedades tornam-se mais multiculturais, e isso quer dizer que há mais mobilidade entre as pessoas, que há mais movimentos de imigração da população, a comunicação, a linguagem precisa melhorar.

 

ÉPOCA – Então quer dizer que tudo e todos estão se misturando?

BENNET – Acredito que o Brasil, assim como os Estados Unidos, está passando por um aumento em sua demografia multicultural, mas ninguém hoje defende mais a ideia de um “caldeirão étnico”. A expressão foi cunhada por Israel Zangwill em 1908, que escreveu uma peça para explicar o movimento imigratório de europeus nos Estados Unidos. O texto da peça falava que os imigrantes europeus que iam para os Estados Unidos estavam se misturando, “derretendo” no caldeirão cultural americano, e ajudando a formar uma “superraça” humana, com o melhor das etnias. A ideia ganhou popularidade rapidamente porque dizia, basicamente, que as pessoas estavam perdendo suas raízes étnicas para se tornar algo novo – no caso dos Estados Unidos, se tornariam americanas, quase que renegando suas origens africanas, europeias ou asiáticas. O problema com essa ideia é que isso simplesmente não ocorreu. O que aconteceu com os imigrantes no passado – e continuará a ocorrer com os estrangeiros hoje – é que eles mantiveram suas raízes ao mesmo tempo em que foram capazes de participar da cultura nacional do país. Por isso, hoje, ninguém está mais dizendo que você é capaz de deixar de ser brasileiro e tornar-se um italiano só porque mora na Itália; no caso, o que há é uma espécie de cultura híbrida. Por essa razão, cada vez mais é necessário às pessoas que desenvolvam habilidades interculturais específicas para poder lidar com o diferente e poder viver em sociedade pacificamente.

 

ÉPOCA – Em que ponto, então, o interculturalismo se difere de outros campos de estudo como a Antropologia e a Sociologia, já que todos estudam as culturas e instituições sociais humanas?

BENNETT – Bom, diferentemente da sociologia ou antropologia, que tendem a ter um olhar mais descritivo, o interculturalismo adota uma postura mais pragmática. Primeiro que nós somos da área da Comunicação, estudamos as formas de comunicação entre diferentes culturas e entre diferentes pessoas. O interculturalismo tenta entender como as pessoas criam sentido para os gestos, ações, palavras e para as outras formas sutis de comunicação e como usam isso para conviver. Estudamos para melhorar a interação entre as pessoas, para que elas se adaptem melhor umas às outras, para que o desentendimento seja diminuído e o entendimento entre duas pessoas diferentes seja melhorado. A Comunicação Intercultural é uma evolução da Teoria da Comunicação para um contexto mais global; defende que as pessoas precisam primeiro entender a si, aprender a dar significado a suas formas de comunicação, para poder criar significados que façam sentido para todos. Em uma situação, por exemplo, em que haja diferenças culturais entre duas pessoas, elas precisam entender quais são essas diferenças para daí saber como elas afetam a comunicação entre si para só então poderem chegar a um ponto em que a comunicação seja eficaz e as duas se entendam.

 

ÉPOCA – Como um interculturalista define essas diferentes identidades culturais dos povos?

BENNETT – É importante saber que existem três aspectos da identidade cultural. O primeiro é aquele em que a pessoa se enxerga, acima de tudo, como tendo tanto uma identidade cultural quanto uma identidade individual – e tirar a identidade individual de alguém é impossível. O segundo é um nível de análise mais social: nossa identidade cultural é formada pela interação com outras pessoas, e parte de nossa visão de mundo está ligada às nossas crenças e aos valores que nos foram impostos a partir de nossa vivência em uma sociedade, em um grupo coletivo.

Por fim, os interculturalistas defendem que se precisa pensar na identidade cultural das duas formas. Por exemplo, no Brasil, acredito, vocês têm uma identidade nacional – e os brasileiros participam, compartilham do sentimento de uma certa cultura nacional -, mas também existem claras divisões regionais e identidades locais associadas às regiões em que as pessoas vivem. Isso sem contar as identidades étnicas que têm a ver com o pertencimento a um certo grupo com uma certa identidade própria. No fim, os brasileiros não são nem só brasileiros nem são também só nordestinos ou sulistas; eles são tudo isso ao mesmo tempo. As identidades regionais e a nacional não se sobrepõem ou se anulam; eles são todas essas identidades, e elas contribuem para construir sua visão de mundo e definir seus padrões comportamentais.

 

ÉPOCA – E como se dá a interação entre essas diferentes identidades culturais dos povos?

BENNETT – Primeiro, há sempre tensão entre duas pessoas de culturas diferentes. Em um primeiro momento negamos a existência da diferença e ou queremos convertê-la ou eliminá-la. Após isso, porém, há a aceitação da diferença e o reconhecimento dela. Com isso, há espaço para uma adaptação entre essas duas pessoas e para a integração. Cada vez mais está sendo usado na área o termo “terceira cultura” para definir essa interação. Eu estou tentando me adaptar a você, você está tentando se adaptar a mim, mas nem eu quero ou posso me tornar você e nem você quer ou pode se transformar em mim. Apesar disso, ambos tentamos entender o mundo um do outro, e isso gera um espaço em comum entre nós, que não diz respeito nem à minha cultura e visão de mundo e nem à sua. Isso, esse espaço, está sendo chamado de “terceira cultura”. Mas não se deve esquecer que isso é apenas um conceito dinâmico, portanto não existe, por exemplo, um país com uma terceira cultura; é algo gerado pela tentativa de adaptação entre pessoas.

 

ÉPOCA – Partindo desse princípio, como um brasileiro, por exemplo, que recebe tantos imigrantes, consegue se adaptar à cultura estrangeira e continuar a funcionar dentro de sua própria sociedade?

BENNETT – Bom, esse é o centro de toda a questão. Por causa do aumento na demografia multicultural em todos os países, nós temos cada dia mais contato com pessoas de criações diferentes e de passados distintos. Gordon Allport, que escreveu o livro The Nature of Prejudice (A natureza do preconceito, sem tradução no Brasil), afirmou há quase meio século que quando você interage com pessoas culturalmente diferentes, e essa interação se dá em um âmbito sócio-econômico relativamente semelhante, há uma diminuição nos estereótipos que criamos do outro. No entanto, na maior parte das situações, essa interação envolve pessoas de classes diferentes, ou seja, com noções de poder diferentes. Isso faz com que queiramos nos segregar do grupo “mais fraco”. E quanto mais as pessoas são alimentadas com essa ideia de suposta superioridade – ou de que, na verdade, os outros é que são simplesmente inferiores -, ou ainda de que a pessoa de outra região está vindo roubar seus empregos, enfim, tudo isso cria estereótipos negativos que podem resultar em agressões. Mas no fundo somos todos iguais.

 

ÉPOCA – Existe uma forma de evitarmos esses estereótipos negativos?

 

BENNETT – Bom, podemos falar de um ponto de vista mais filosófico, e esse ponto de vista é que as pessoas podem mudar. Pegue, por exemplo, o homem das cavernas. Somos tão diferentes deles! E a nossa diferença para eles foi construída por atos conscientes de educação: nós ensinamos nossos filhos a fazer aquilo que achamos correto, criamos leis baseados no que acreditamos ser melhor para nossa sociedade… Por mais que o ser humano em si não seja modificável, seu comportamento o é.

O que acontece é que nosso comportamento natural, desde sempre, tem sido o de evitar as diferenças, e isso, infelizmente, pode ser traçado de volta até o mesmo homem das cavernas. Quando nos deparamos com o diferente, tentamos evitá-lo. Em um primeiro momento, tentamos até convertê-lo para que seja igual ao nosso ponto de vista, e aí acreditamos que está tudo bem. Basicamente, queremos que todas as pessoas no mundo sejam como nós, porque, afinal de contas, achamos que nosso ponto de vista é o correto. Infelizmente, porém, se essa conversão falha, a história mostra que o ser humano parte para a saída mais simples, que é eliminar o povo culturalmente diferente – e frequentemente isso acontece das maneiras mais horrendas.

Portanto, o que precisamos fazer é nos afastar dessa tendência natural; precisamos chegar a um ponto em que haja igualdade entre todos e entre diferentes sociedades; um ponto em que pelo menos a tolerância – e veja que não falo nem em apreciação pela diferença, mas na simples tolerância ao diferente – seja a base das relações sociais. Para tanto, precisaríamos de um esforço maior de toda a sociedade, principalmente dos pais, educadores e políticos, para constantemente lembrar-nos e nos ensinar que conviver com pessoas diferentes é bom.

 
ÉPOCA – Como o senhor analisa o que está acontecendo hoje com a sociedade?

BENNETT – Acredito que, no longo prazo, o que vai mudar é a forma como todos nós agimos. Acredito que estamos todos aprendendo, mas as pessoas ainda precisam desenvolver o que chamamos de “inteligência contextual”. É um termo que foi criado na Faculdade de Negócios de Harvard e que representa a capacidade de uma pessoa de entender o contexto de uma situação – mais do que entender as palavras, saber falar a mesma língua, é entender todo o contexto cultural dessa situação. Quanto mais rápido todos conseguirem reconhecer esse contexto, e quanto mais rápido conseguirem mover-se por contextos diferentes, mais fácil é a comunicação entre as pessoas. No campo intercultural, esse tipo de inteligência contextual é chamado de “competência intercultural”, e é exatamente essa competência que as pessoas precisam desenvolver para poderem se comunicar em um mundo cada dia mais conectado.

 

ÉPOCA – Como isso tudo pode ser feito?

 

BENNETT – Uma excelente oportunidade para desenvolver essa competência e as habilidades de um interculturalista é estudar fora ou morar um período no exterior ou em uma região diferente. Isso sozinho, porém, não é suficiente. Tipicamente, o que acontece é que as pessoas que planejam estudar fora são mal preparadas – se é que recebem algum preparo. A única coisa que se faz hoje, pela maior parte dos organizadores de tais viagens, é dizer às pessoas “aqui estão algumas informações sobre o seu país de destino”, mas isso está errado e não funciona. A alternativa que os interculturalistas recomendam é preparar essas pessoas com estratégias que lhes ajudem a desenvolver sua inteligência contextual, de forma que elas possam reconhecer as diferenças culturais e aprendam com isso. Mais do que saber que franceses gostam de queijo e vinho, é importante que a pessoa aprenda a adotar uma postura de análise intercultural frente a esses franceses e entenda por que eles gostam de queijo e vinho.

Também é importante que, durante a estadia no exterior, essa pessoa tenha um acompanhamento de perto, algo que chamamos de ensino facilitado. Eles são ajudados a entender suas próprias culturas para daí conseguirem enxergar onde estão as diferenças entre seus pontos de vista e os pontos de vista das outras pessoas. Esse tipo de aprendizagem intercultural deve ser facilitado durante a experiência; não adianta ser feito antes e nem depois. Por fim, há que haver um processo de retorno, que é quando a pessoa volta ao seu país, ao seu cenário cultural e precisa pôr em prática aquilo que aprendeu e se readaptar à sua realidade.

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This entry was posted on October 2, 2013 by in Entrevistas and tagged , , .
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